Dilermando Reis - Abismo de Rosas
É com real regozijo e inenarrável alegria que, enfim, volto-lhes a escrever neste bom e estimado espaço virtual. Confesso-lhes o quão pungentes e consternados foram os dias que por aqui não pude passar, deixando linhas e álbuns necessários ao espraiamento de nossa nobilária arte das seis cordas. É interessante notar a variedade e multiplicidade de blogs violonísticos que pululam nos virtuais meios tecnicistas. E, ainda assim, existem diversos leitores e freqüentadores deste nosso espaço que estão verdadeiramente ofendidos pelo precipitado e incurioso abandono. Levo-me a crer que sejam imprescindíveis algumas notas explicativas a fim de que não se encete qualquer celeuma.
Para aqueles que dispõem de maior tempo (e paciência, também), a nossa orkutiana comunidade revelou os motivos de minha indesculpável ausência. Lá expus, com a clareza e objetividade que merecem as explicações, os motivos de tão prolongada ausência. Eis que vos trago, pois, ipsis literis, as linhas de outrora e, aproveitando o ensejo, acrescento mais algumas. O fato é que meu velho pai sofreu um grave acidente. Antes que os pruridos leitores se exaltem, eis que vos acalmo. O acidente não foi, de modo algum, irreversível e tampouco envolvendo outros entes. Mas vamos aos fatos: quando asserto ser ele de uma idade já avançada, não estou a utilizar qualquer veleidade discursiva. Pelo contrário, meu demiúrgio progenitor fez 8 decênios em novembro passado. Com efeito, toda família possuí uma pessoa que apresenta avançada e delicada idade. Posto isso, sabem o quão difícil e sensível é a saúde de uma pessoa que apresente tal longo tempo de existência. De qualquer forma, quero crer que os anos se lhe tornaram um tanto quanto insuportáveis e terrivelmente pesados. Meu estimado pai sofreu um enfarto e, no período em que internado se encontrava, mais três AVCs. Não é necessário dizer a profundidade de meu desespero e preocupação. Larguei às drosófilas não apenas nosso estimado espaço virtual, como parte de minha existência pragmática. Graças aos deuses, rezas e pedidos, hoje ele descansa ao som de Dilermandos e Nazareths, que pacientemente executo para ele (ou, em uma leitura menos idílica, ele escuta no computador).
Bem sei que os problemas de minha azafama vida não lhe competem. De qualquer modo, melindrei as vicissitudes daqueles que enxergavam nesse espaço o local de união, de fusão entre interesses semelhantes e esperanças duradouras. Afinal, o derradeiro propósito deste blog, deste o início, foi o de proporcionar para aqueles que (tal qual esse que vos escreve) possuem o indevassável apreço e desmesurada paixão pelas seis cordas violonísticas. Jamais intentei vilipendiá-los. Contudo, por forças maiores do que pude suportar, tive de atentar para necessidades mais prementes, que demandavam soluções. Mas o tempo, como diria o filósofo, é providente. Eis-me aqui, mais uma vez, a lhes embarafustar com tantas linhas e álbuns. Dessa vez, prometo-lhes, será ininterrupto o meu trabalho. Pois que o refundemos!
O álbum de hoje é absolutamente significativo. Como lhes disse anaforicamente, escutei e estudei, durante muitos meses, a obra de Dilermando Reis. É bem verdade que a influência é, como quer Harold Bloom, um exercício de desleitura. Encetei minha vida musical ainda bem jovem, deslumbrado com as possibilidades de sete singelas notas. E como apresentava certa intolerância à vida social, a música como se tornou algo mais do que natural. O violão apenas tornou-se subseqüente. Meu velho pai já há muito apreciava a plenitude harmônica das interpretações do bom Dilermando. E lá fui eu, a estudar a nobre arte das seis cordas, influenciado por meu pai. A desleitura é um processo interessante. Por diversos anos, realmente não compreendia e cheguei ao incompreensível extremo da ojeriza para com Dilermando. Com o tempo, o ouvido vai-se delineando, os professores vão-lhe aprimorando e ... pronto! Dilermando tornou-se uma grande referência e influenciador de muitos estudos.
O álbum que agora vos trago apresenta muitas das qualidades que tornaram Reis conhecido e admirado: repertório exuberante, interpretação penetrante, percepções sonoras verdadeiramente invejosas, enfim, um dos mais caleidoscópios retratos das infinitas possibilidades presentes em seis modestas cordas. Os que já estudaram a suntuosa música brasileira violonística, invariavelmente depararam-se com obras deste virtuoso violonista. Coral del Norte, a segunda faixa deste álbum, é uma delas. Não obstante, tal composição não é de Dilermando Reis, mas sim do egrégio compositor argentino Juan Rodriguez. É interessante atentar para o fato de que tal gravação, à época de Dilermando, não era conhecida pelas América portuguesa. É graças a sua gravação (com algumas pequenas alterações da obra original) que Coral del Norte foi difundida por aqui. Tal composição é magnífica e torna-se ainda mais mirífica na interpretação desse primoroso violonista. O compasso (que aos meus ouvidos soa em 6/8) traz uma sonoridade inconfundivelmente Castelhana, alternada com momentos de certa profundidade, de exploração de distintos acordes. Sem dúvida, essa não é a única peça conhecida: lá estão Magoado, Marcha dos Marinheiros, Uma valsa dois amores, a faixa homônima e outras preciosidades. Como diria um saudoso professor: “apenas o oligofrênico é que não compreenderá a magnitude de Dilermando Reis”. Não sei se concordo com tão hiperbólico pensamento, mas reconheço o poder hipnótico dos dedilhados de Reis. É interessante atentar para as proporções harmônicas da excelente transcrição de Beethoven (sonata ao luar) presente ao final do álbum. Em suma: um álbum para “reinaugurar” nosso bom blog e para deleitar os ouvidos dos queridos leitores. Pois que aproveitem!
Disclist:
01 – Marcha dos Marinheiros
02 – Coral del Norte
03 – Sons de Carrilhões
04 – Noite de Luar
05 – Magoado
06 – Granadina
07 – Abismo de Rosas
08 – Adelita
09 – Tristesse
10 – Uma valsa dois Amores
11 – Sonata ao Luar
12 – Ruas de Espanha
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