sexta-feira, abril 03, 2009

Norbert Kraft - 19th Century Guitar Favourites


A música oitocentista é, de fato, uma das mais expressivas e instigantes de toda a história musical. Indubitavelmente, esse discurso axiomático – quiçá apologético – pode revelar, da parte desse que vos escreve, certa oligofrenia. De forma a tranqüilizar-vos, faremos uma breve, talvez mínima, incursão sobre o aspecto sociológico da música de tais idos.

Fernando Sor, Francisco Tárrega e Dionísio Aguado são, por suposto, uma tríade que remonta aos melhores e mais faustos momentos de nossa amada arte das seis cordas. Não obstante, seria uma incúria e desmesurada irresponsabilidade olvidar nomes como o de I. Albeniz, A. Cano, J.K. Mertz, Schumman, entre incomensuráveis outros. Mas o fato é que o blog é, de certo modo, deveras curto – tal qual a sagacidade desse fúfio ser que vos escreve. Portanto, fiquemos apenas com a tríade anaforicamente citada. As obras do espanhol Fernando Sor foram (são!), na falta de melhor epíteto, absolutamente importantes para o desenvolvimento de todo e qualquer violonista que almeje um maior controle sobre seu instrumento. Prova disso são os famígeros e belíssimos dez estudos, separados pelo egrégio A. Segóvia, há longo e incontável tempo. De fato, os tais estudos mostram um compositor muito afinado com a estética de sua época, que apregoava formas musicais mais expressivas, a par da normatividade e logicidade “estrutural” classicista – além de ensejar a tão estereotipada subjetividade, que apontava para modulações entre tons mais distantes (diferente do que ocorria nos períodos anteriores), com sobrelevada atenção à harmonia e ao ritmo (caso das Op. 6, 31 e 35).

Conterrâneo de Sor, Dionísio Aguado também compôs séries didáticas para o violão, pois sabia da premente necessidade de enaltecer sua demiúrgica arte e de melhor preparar os (poucos, diga-se) violonistas de então. É interessante notar que muitas das reflexões de Aguado sobre a “ergonomia” do instrumento são até hoje utilizadas – levo-me a crer que a mais difundida seja a do preclaro e polêmico apoio para o pé, ou aos mais íntimos, tão-somente “banquinho”. Ademais, várias foram suas contribuições: posições de ataque, reestruturação do cavalete do instrumento, e – segundo dizem alguns – até mesmo os harmônicos oitavados teriam surgido por sua sagaz influência. De todo modo, o que Aguado produziu de verdadeiramente significativo foram suas obras. Além de realizações estéticas verdadeiramente magníficas, são peças didáticas que englobam todo um interessante aspecto do instrumento. Por tal razão, muitas de suas obras – assim como as de Fernando Sor – conservam um alto grau de dificuldade, que são potencializados pelo excelente domínio, do compositor, de seu instrumento.

Francisco Tárrega, instigante e coincidentemente conterrâneo dos dois compositores supracitados, é um caso a parte. Além de dispensar quaisquer apresentações (uma vez que sua vastíssima obra o precede) conserva em suas peças o que de melhor se pode encontrar em nosso feérico instrumento. Por suposto, alguns quererão ver nessas afirmações tão e somente um discurso laudatório ao tal virtuoso compositor, o que não deixará de ser verdade. Contudo, Tárrega não é apenas um grande compositor, instituidor da eufonia nas seis cordas. Com efeito, é possível verificar na obra do ilustre violonista toda uma gama de significantes que, de uma maneira ou outra, conferiram ao instrumento o status quo de que, hodiernamente, ele é detentor. Levo-me a crer que nenhum de vós, caríssimos e nobilários leitores, são caudatários de comparações escusadas e absolutamente escalafobéticas. Há, por certo, comparações necessárias, que apenas engrandecem os objetos cotejados. E eis aí, pois, o caso de Tárrega com os grandes nomes “contemporâneos” (ou, ao menos, com maior proximidade histórica) ao seu. Assertam, destarte, ser o magnífico compositor o que foi um Liszt, um Chopin ou um Schumann para seus instrumentos. Confesso olhar com ressalvas o estabelecimento de tal paralelo. Mas não se pode deixar de reconhecer a virtuosidade e absoluta importância para a história musical de todos os nomes elencados.

Como se pôde perceber, a música produzida sob a égide “oitocentista” – quem sabe “Romântica” – (valendo-se do bom e velho clichê cartesiano) “foi, é e será” muito plural e significativa. Utilizemos, pois, o epíteto de “música do séc. XIX” para nos referirmos à produção citada. A Espanha possui, sem dúvida alguma, uma memória musical absolutamente invejável. E os anos oitocentistas apenas resgataram esse passado fascinante. Desde a auto-afirmação nacional Albeniz (basta nos lembrarmos de Iberia), passando pela expressiva e proficuamente didática obra de Sor e, finalmente, realizando-se plenamente na obra de Francisco Tárrega, o movimento musical que abrange o século XIX – sobremaneira, o Espanhol – é vividamente precioso e estruturalmente imprescindível para as estéticas ulteriores. Lembremo-nos, ainda, da figura de um Manuel de Falla, compositor simbioticamente ligado ao Impressionismo – e, posteriormente, ao neoclassicismo de Stravinski – e que produziu obras de inenarrável importância, como Homenaje. Infaustamente, temos de ficar apenas com o séc. XIX, o que não permite maior incursão sobre a música espanhola.

Talvez esteja acometido por uma sensação incômoda, ou a verdade se encontre irremediavelmente pronunciada, mas parece haver vestígios, nesse texto que por ora escrevo, de que não fui tão claro quanto deveria ou poderia. E isso é bom! Afinal, o nosso escopo, aqui, não é discorrer sobre a historiografia musical oitocentista na Espanha. Antes, é apreciar, criticamente, a interpretação de um virtuoso violonista de tais obras. Norbert Kraft, nesse aspecto, foi providencial. Conseguiu transfigurar para suas interpretações todas as vicissitudes presentes nas entrelinhas de cada estudo de Sor e Aguado, executados com acuro e gravidade. Ademais, as soberbas obras de Tárrega, presentes no álbum, soam maviosamente singulares, em nada deslocadas da atmosfera grandiloquente, faustamente ordinária nas peças desse ilustre compositor.

Seria impossível, diletos leitores, esperar menos de Kraft. Essa asserção parte não somente da apreciação da obra desse prestímano violonista. Antes, decorre da análise de algumas de suas atitudes como cultor da arte das seis cordas. Sem dúvida, a mais sublimar delas foi a criação do selo Guitar Collection, veiculado a renomada gravadora Naxos. Com efeito, não foi Kraft quem de fato desenvolveu tal projeto. Mas é ele quem supervisiona a seleção de obras e intérpretes para tal selo. Não conservo nenhuma queixa para com tais critérios – no que, creio, sou seguido por muitos leitores de nosso bom espaço.

Deixo-vos, pois, com o bom disco. A tenção é que apreciem ainda mais e dilatem a compreensão e magnitude das peças produzidas no século XIX. Confesso-me, assim, um verdadeiro entusiasta desse período musical – sobre o qual, aliás, já escrevi e discorri bastante, quando ainda fazia parte do universo acadêmico. Remeto-vos, pois, a uma precípua leitura acerca do Romantismo musical. Trata-se do excelente ensaio de Bruno Kiefer, intitulado O Romantismo na Música. Eis a referência completa: KIEFER, B. O Romantismo na música. In: O Romantismo, GUINSBURG, J. Perspectiva, 1985.

Dada a grande extensão do DISCLIST, reporto-vos ao LINK onde o podem encontrar.

NORBERT KRAFT – 19th CENTURY GUITAR FAVOURITES.

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sexta-feira, março 27, 2009

Norbert Kraft - Guitar Concertos

Hodiernamente é com consternadora regularidade que se pode notar certo descompasso entre a música clássica e sua audiência. Com efeito, acurando-se um pouco o estudo, o que exige certa cautela para que não se emitam opiniões taxativas e tendenciosas, vê-se, pois, que a música erudita é estranhamente segregada dos meios culturais massificadores. Certamente, não há como tornar um discurso tão compósito como o da música erudita em algo massificado, genérico e, por consequência, descartável. Mas esse sempre foi (é e ainda será) um ponto que erige grande celeuma no universo da música.

De qualquer modo, quando ainda era um diletante – de fato, nunca o deixei de ser; mas hoje conservo, digamos, um maior discernimento e criticidade em relação ao que ouço – me impressionou deveras a audição de tal concerto, em que um excêntrico musicista empunhava um instrumento conhecido, em uma então inconcebível posição. O fato é que a música que dali espraiou-se foi de tal forma hipnotizante e mirífica, que compreendi a razão da dificuldade em se apreender todos os meandros da arte das seis cordas. A peça era, por suposto, o famigerado Concierto de Aranjuez.

Indubitavelmente, o executante de tal distinto e saudoso momento de minha pregressa existência era ignoto – e talvez o continue sendo. Não obstante, a pluralidade e ousadia da peça ficou-me indelével na memória. Ulteriormente a esse idílico momento, tive a oportunidade de vislumbrar uma execução dos concertos para violão do extático Villa Lobos. O movimento Cadenza (Andatino e Andante) é especialmente magnífico. Ali tive a certeza de que a música erudita era, imperativamente, a grande força que demove o nosso pantalifúsio universo. Pois que lancei o repto: já que a música clássica não recebe lá a sua devida e mais do que merecida atenção, que se escutem suas mais proeminentes e significativas criações. O óbice é que estamos a falar de um instrumento historicamente segregado e melindrado dos grandes palcos e afins.

De qualquer modo, como puderam vislumbrar pelo título, hoje teremos o grande prazer e desmesurada honra de empreender uma audição desses variados concertos. Extraiamos daí, pois, nossas conclusões – que certamente enaltecerão tanto violonista quanto compositores.

Pressuponho, salvo engano (como diria um grande crítico) que já lhes trouxe em outra oportunidade um álbum do virtuoso Norbert Kraft. Naquela ocasião lhes direcionava para as críticas (indevidas, a meu ver) que esse intérprete sofria por gravar composições de Villa Lobos. Eis que novamente ele o faz, e com a mesma qualidade e maestria. É de se notar o grande acuro da produção deste álbum, gravado, truisticamente, em conjunto com a célebre northern chamber orchestra, que conserva o igualmente notável violinista Nicholas Ward como seu diretor. De fato, a soma dos elementos não poderia produzir música mais vigorosa, espontânea e jubilosa. O programa traz obras de três compositores distintos, que revelam diferentes momentos da música de concerto produzida para o violão – o que denota, por si só, a extrema dificuldade do repertório e imprescindibilidade do conhecimento acerca da arte das seis cordas.

Mario Castelnuovo-Tedesco, Joaquin Rodrigo e Heitor Villa-Lobos. Escalas mais do que céleres, complexo trabalho da mão esquerda, discurso polifônico é o que, entre indefiníveis conceitos, os tais autores rememoram. Sem dúvida, o grau de maturidade musical de um intérprete que se atreva a executá-los deve transcender o que se possa compreender por “alto”. Ademais, é necessária grande desenvoltura com uma orquestra, o que exige anos de prática e um ouvido treinado às matizações das várias vozes. Portanto, não se pode dizer que Kraft não possua qualidades, ao mínimo, apreciáveis. Levo-me a crer, de qualquer forma, que para um violonista com a experiência de Kraft isso não deva lá ser tão complicado – afinal, o repertório de gravações dele é amplamente variado.

Retomando o que no começo expusemos, talvez a música erudita conserve a áurea de “difícil, impenetrável e complexa” apenas por possuir mais virtudes do que defeitos. De fato, é improvável que se enxerguem tantas incongruências nas obras de Villa Lobos ou de Castelnuovo-Tedesco quanto nas de um conjunto de hodierno conjunto de rock. De uma forma ou outra, a produção erudita para o instrumento por nós apreciado não pode e tampouco merece ser olvidada e aviltada. É caso, pois, de que ouçamos a inter-relação estabelecida entre a produção para violão solo e aquela que abrange outros instrumentos. Por suposto, a orquestra sofre certas limitações por estar ao lado de um instrumento como o violão. Entretanto, são potencializados aspectos outros, impossíveis no violão solo, como movimentos mais densos e diversificados, orquestrações concisas e sólidas, etc.

Escutamos, enfim, uma verdadeira inserção do violão num patamar de igualdade com os demais instrumentos. Ademais, a fusão de um violonista maduro e virtuoso com uma orquestra competente e comprometida podia, tão e somente, gerar o álbum que agora irão sensorialmente experienciar. E viva a música erudita, especialmente a produzida para o nobilário violão!

Disclist:

RODRIGO: Concierto de Aranjuez

1 Allegro con spirito
2 Adagio
3 Allegro gentile

VILLA-LOBOS: Concerto for Guitar and Orchestra

4 Allegro preciso
5 Andantino e Andante: Cadenza
6 Allegretto non troppo

CASTELNUOVO-TEDESCO:

Concerto for Guitar and Orchestra No. 1, Op. 99

7 Allegretto
8 Andantino alla romanza
9 Ritmico e cavalleresco - Quasi andante - Tempo I


Link: NORBERT KRAFT - GUITAR CONCERTOS.

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terça-feira, julho 03, 2007

Norbert Kraft - Villa-Lobos: Complete Music for Solo Guitar

Bem sei que devem estar cansados de ouvir interpretações das mesmas peças, obras do mesmo autor, enfim, tudo outra vez. Mas como diria Moska: “É tudo novo de novo”.

Embora o compositor nos seja mais do que conhecido, as peças já nos sejam até um tanto quanto “chatas” (que heresia, dirão alguns) e, até certo ponto, ficarão um tanto quanto irritados em ver, ou melhor, em ouvir outra vez o emérito Villa Lobos eis que vos digo: há uma razão para, de novo e mais uma vez, trazê-lo aqui! E eis a fausta razão: Norbert Kraft!

Sim. Norbert Kraft é o nome do violonista. Concordo. Muitos não conhecem e outros tantos têm uma verdadeira antipatia por ele – a qual eu não sei explicar e da qual eu não partilho. Bem, a verdade é que Kraft é desconhecido da grande maioria dos brasileiros, a não ser por um trabalho: e tal gravação é, precisamente, o motivo pelo qual o odeiam. Trata-se do álbum que agora vos trago. Então devem a pensar que estou louco, ao trazer essa gravação. Oras, talvez eu seja mesmo. Mas antes disso, a tenção é que os nobres e agudos amigos ouçam tais interpretações e tirem suas próprias conclusões. Afinal, para criticar algo é essencial conhecê-lo bem, não?

Desse modo, trago-vos então o polêmico e excelente disco de Norbert Kraft a interpretar a obra completa para violão solo do egrégio Heitor Villa Lobos. O primoroso violonista Norbert Kraft nasceu na Áustria, nos idos da década dourada de 50. Radicou-se no Canadá ainda jovem e por lá se tornou um dos mais proeminentes violonistas que tal país já havia visto. Em 1975 venceu a competição da rádio canadense CBC, o que deu a Kraft certa relevância. Dizem que muitas universidades, escolas de música, gravadoras começaram a dar atenção à ele, desde então. Então, um decênio mais tarde, em 1985, Kraft atendeu às expectativas alheias e venceu o famigerado e conceituado prêmio Andrés Segovia International Guitar Competition – que, pelo nome, já denota a grande dificuldade e primazia – tornando-se o primeiro norte americano a atingir tal feito. Pois é. A reputação do homem o precede.

Bom. O fato é que esse disco é, ao meu ver, muito bom. Claro que nem todos irão gostar dele. Mas é justamente isso que quero. Provocar a discussão, a troca de idéias. Apenas assim é que vocês, meus mais do que prezados e estimados amigos, poderão crescer e sedimentar o conhecimento de vocês.

Disclist:

1. Chor No.1
2. St Populaire Bresilienne: No.1 Mazurka - Choros
3. St Populaire Bresilienne: No.2 Schottisch - Choros
4. St Populaire Bresilienne: No.3 Valsa
5. St Populaire Bresilienne: No.4 Gavota
6. St Populaire Bresilienne: No.5 Chorinho
7. 12 Etudes: No.1 Allegro Non Troppo
8. 12 Etudes: No.2 Allegro
9. 12 Etudes: No.3 Allegro Moderato
10. 12 Etudes: No.4 Un Peu Modere
11. 12 Etudes: No.5 Andantino
12. 12 Etudes: No.6 Poco Allegro
13. 12 Etudes: No.7 Tres Anime
14. 12 Etudes: No.8 Modere
15. 12 Etudes: No.9 Tres Peu Anime
16. 12 Etudes: No.10 Tres Anime
17. 12 Etudes: No.11 Lent - Anime
18. 12 Etudes: No.12 Anime
19. 5 Prlds: No.1 in e
20. 5 Prlds: No.2 in E
21. 5 Prlds: No.3 in a
22. 5 Prlds: No.4 in e
23. 5 Prlds: No.5 in D
NORBERT KRAFT - VILLA LOBOS
Ps: AQUI podem encontrar a obra completa para violão, em PDF, do emérito Villa Lobos.

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